Nestes artigos que tenho a oportunidade de escrever, tento mostrar o que é o dia-a-dia de um consultor imobiliário e a forma como interpreto o que se passa à nossa volta. Tenho a secreta esperança de ver um dia a profissão respeitada e o sector conceituado e acho que, modestamente, vou tentando dar esse contributo através destas linhas.

Não vou andar aqui a bater no ceguinho, mas confesso-vos que uma das coisas que me faz mais impressão é a forma como a profissão se destrói e enxovalha a si própria.

Começa, naturalmente, na total ausência de critério em contratar os futuros “profissionais”. Já aqui escrevi e mantenho: parece que, para muitas agências, vale tudo, desde que nesse tudo possa caber a secreta esperança de o futuro consultor vender algo. E termina com a forma como nós próprios achamos que somos a última Coca-Cola no deserto e tudo o resto está abaixo da nossa genialidade.

As redes sociais acabam por ser muito o reflexo desse barômetro, dessa montra de vaidades, onde o que conta é mostrar aos outros o nosso aparente sucesso. Uma opção legítima, note-se, mas que esquece o essencial: quem nos agradece em primeiro lugar são os nossos clientes e esses, na maior parte dos casos, nem sequer vão ver as nossas publicações. Ou porque não nos seguem ou porque não são nossos amigos nas redes. Sobra, assim, a partilha para com os nossos pares, uma estratégia comercial como outra qualquer, que seria igualmente legítima se nós, entre colegas, não fôssemos às vezes tão fdp uns com os outros (pardon my frenchof course).

E se acham que estou a exagerar na importância da defesa da classe, vejam por exemplo, o caso dos médicos. Funcionam como lobby, respeitam-se entre pares e, em consequência disso, são respeitados. Querem um exemplo recente? O Governo ameaçou que pondera abrir vagas de Medicina no privado, se as Faculdades de Medicina não abrirem mais vagas para os futuros médicos. Digo ameaçou porque este não é um assunto novo deste Governo (ou de outro qualquer) e acaba sempre tudo por ficar na mesma: quem decide os numerus clausus para Medicina é o sector e bem podem os restantes players dizer de sua justiça que nada se altera. Estão a ver um Bastonário da Ordem dos Médicos a tremer de medo com as afirmações de um qualquer Ministro do Ensino Superior? Eu não!

Voltando ao nosso mundo imobiliário, acho que alguma união entre todos é, manifestamente, algo que nos faz falta e nos fazia bem. E acredito que se nos respeitássemos e nos juntássemos na defesa da nossa profissão, tudo seria muito mais fácil para todos.

Jean Paul Sartre, um filósofo francês que já vos falei aqui, explicava que o inferno são os outros porque os nossos projectos entram em conflito com o projecto de vida de quem nos rodeia. E, em consequência, estes acabam por tirar parte de nossa autonomia, impedindo-nos de ser livres porque acabamos por nos expor, nas nossas fraquezas e fragilidades. Sartre nunca foi consultor imobiliário, mas tenho a certeza que, se o tivesse sido, perceberia rapidamente que o inferno não são os outros. Somos nós.

Francisco Mota Ferreira

Consultor Parcial Finance

In Diário Imobiliário 31/07/2020

https://www.diarioimobiliario.pt/Opiniao/O-inferno-nao-sao-os-outros